| Medo e pânico podem ter significados bem parecidos no dicionário: o medo caracteriza receio, terror, ou susto. Já o pânico é aquilo que assusta súbita ou violentamente sem razão ou geralmente por motivos infundados. Ao avaliarem as causas que levaram os moradores de Icaraí e adjacências a ficarem aterrorizados em tão pouco tempo com a recente história do "maníaco da faca", especialistas em segurança pública e distúrbios comportamentais chegaram à seguinte conclusão: "a Zona Sul de Niterói sofre de histeria coletiva".
 "Nós realizamos julgamentos de coisas que vimos, e ouvimos. Contudo, a preocupação com o bem-estar e a integridade física existe em todos. O ser humano possui o instinto de sobrevivência e proteção, por isso ele se envolve e questiona esses possíveis ataques", explica a psicóloga da Universidade Federal Fluminense (UFF) Cristine Fares.
Segundo ela, a sensação de insegurança vivida por muitos moradores de Icaraí e Santa Rosa – que vêm sendo palco de recentes assassinatos, como o do dono do Bar do Nani, na Rua Ministro Octávio Kelly, no dia 15 de março; e o de um casal na Avenida Ary Parreiras, no dia 13, e ainda da atuação de um suposto psicopata – está deixando a população preocupada. Para o especialista em Segurança Pública Fábio Reis Mota, também professor da UFF, Niterói vem crescendo sem acomodações ou estrutura de vida para as pessoas. Há, ainda segundo ele, grande migração de bandidos do Rio para a cidade, o que ajuda a contribuir ainda mais com a sensação de insegurança.
"Não há como prevenir o crime com o crescimento da população de rua que vive na Zona Sul. É preciso intensificar o policiamento e, principalmente, incentivar a comunicação entre policiais e população. Não basta o cidadão ser vítima, ele precisa notificar o fato, assim é possível estabelecer estratégias que combatam a criminalidade no total", avalia, concordando que a população passa por um momento de fragilidade.
"É de se estranhar que somente com o registro de um único caso de ataque na delegacia, este assunto tenha tido tanta repercussão", avalia, referindo-se ao caso do "maníaco da faca".
A 77ª DP (Icaraí), delegacia que investiga o recente atentado contra o comerciário de 25 anos atacado a facadas na Rua Miguel Couto, em Icaraí, no dia 4, já recebeu cerca de 40 telefonemas de pessoas pedindo informações sobre o caso. Na última semana, a titular da distrital, delegada Janaína Penegrino, usou a imprensa para tranquilizar a população, negando a existência do "maníaco da faca".
"A violência que antes era vista pela televisão em tiroteios, sequestros e assassinatos em massa, agora chega a Niterói, e isso aterroriza a população e acaba despertando o medo. A pessoa acaba achando que pode se tornar mais uma vítima", argumenta a psicóloga Cristine Fares, avaliando que a sensação estabelecida nestes moradores que ligam para as delegacias e se preocupam com a existência de um possível maníaco, não deve ser encarada como pânico, mas sim como uma histeria coletiva.
Segundo a especialista, a ideia de um maníaco na cidade foi absorvida tão rapidamente por todos, porque o ser humano precisa encontrar respostas e argumentos para os acontecimentos.
"Antes de nos preocuparmos com o perigo, queremos entendê-lo e, ainda, solucioná-lo. É justamente no encontro de respostas que se pode acalmar a mente humana", acrescenta.
A psicóloga ressalta que a situação de Niterói ainda não pode ser diagnosticada como caso de transtornos de pânico.
"Essa doença é trabalhada e diagnosticada de maneira individualizada. O caso que observamos hoje é coletivo, o medo, o temor e a vontade de se preservar contra um possível maníaco", explica.
Assunto tratado com seriedade em colégio
Em meio ao clima de insegurança que se instalou na Zona Sul, quem anda pela região tenta se proteger como pode. O entregador Alex Sandro Fernandes Silva, de 31 anos, conta que quando caminha pelas ruas, fica olhando para todos os lados, para verificar se está sendo seguido.
"Ando pelas ruas de Icaraí e Santa Rosa de bicicleta. Imaginem se o maníaco resolve me atacar?", questiona o trabalhador. "Acho que foi um pouco de exagero, já que só foi feito um registro na delegacia, mas na dúvida, é melhor não arriscar", acrescenta.
A notícia do "maníaco da faca" caiu como uma bomba nas conversas de corredores das escolas e bate-papos em áreas de lazer da cidade. No Instituto Abel e no Colégio Salesiano, em Icaraí, o tema foi tratado com seriedade. Durante alguns dias da última semana, agentes da 77ª DP (Icaraí) foram até às unidades de ensino para esclarecer à direção e aos professores que não existe "maníaco da faca" na região.
O professor Anderson Rocha da Silva, do Colégio São Vicente de Paulo, na Rua Miguel de Frias, contou que muitos alunos do 3º ano do ensino médio se mostraram assustados com o caso, enquanto outros satirizaram o personagem do "maníaco da faca".
"Cada adolescente é de um jeito. Tem os preocupados, que perguntam se eu já vi ou se estou com medo. Outros brincam. Apelidaram inclusive o 'maníaco da faca' com o nome de um personagem de um programa de televisão que tem o jargão ‘olha a faca’. Eu, pessoalmente, não creio que ele exista", avalia o educador.
Outra professora, Fabiane Demiere, contou que os alunos dela não estão levando o caso a sério.
"Não senti seriedade nos comentários dos meus alunos. Eles brincam com a situação pois acham que o 'maníaco da faca' não existe".
Já a bancária Régia Perdigão, de 39, moradora de Itaipuaçu, considera a Zona Sul muito perigosa. Ela sempre pede para os quatro filhos ligarem dando a localização e a hora em que vão chegar em casa.
"São todos pré-adolescentes e, por isso, o cuidado deve ser redobrado. Minha filha, que passa mais tempo em Icaraí, já teve inclusive pesadelo com este suposto maníaco. Ela ouviu a história na casa de uma tia e acabou ficando impressionada", conta. |